Sunday, November 18, 2012

Os mapas e a construção de diferenças na cidade. Institucionaliza-se um discurso segregador?

Os mapas e a construção de diferenças na cidade. Institucionaliza-se um discurso segregador?

Wednesday, November 07, 2012


Entre os arranha-céus de Seul, uma favela não deixa a Coreia esquecer o passado

Barracos feitos de madeira, placas de metal e cobertores de lã sintética abrigam milhares de pessoas que não conseguiram se beneficiar do desenvolvimento econômico do país

Yan Boechat, enviado especial a Seul* |
http://economia.ig.com.br/2012-06-05/guryong-uma-favela-no-coracao-de-seul.html

Yan Boechat
Os barracos da favela de Guryong contrastam com a opulência dos edifícios de luxo do distrito de Gangnam, onde um apartamento não sai por menos de US$ 3 milhões





Uma das áreas mais nobres de Seul, o distrito de Gangnam une duas facetas do fabuloso desenvolvimento econômico pelo qual a Coreia do Sul passou nas últimas três décadas. Nas congestionadas ruas desse bairro repleto de arranha céus, lojas de grifes internacionais e bares com cara de pubs ingleses, jovens coreanos caminham apressados com os olhos colados em smartphones e tablets, sem, sabe-se lá como, esbarrar uns nos outros. As luzes coloridas dos luminosos em neon, as gigantescas telas em alta definição presas nos altos edifícios, os faróis dos carros quase futuristas, tudo reforça a imagem de um país moderno, que caminha no limite do desenvolvimento tecnológico e da pujança econômica.
Leia também: Coreia do Sul demonstra interesse em acordo comercial com Brasil
Mas a menos de cinco quilômetros desse típico cenário asiático do século 21, persistem inalterados os resquícios de um país que até 50 anos atrás era um dos mais pobres do mundo. Escondidos por trás de compridos ciprestes e um longo muro de pedra que margeia uma movimentada avenida, centenas de barracos feitos de placas de metal, pedaços de madeira, papelão e, curiosamente, cobertores de lã, abrigam uma parcela da população coreana que não conseguiu se beneficiar dessa recente expansão econômica. Ao todo moram 2,2 mil pessoas em Guryong , uma típica favela, na melhor acepção da palavra, mesmo para especialistas no assunto, como os brasileiros.
A favela de Guryong ocupa uma área de 58 mil metros quadrados na região mais rica de Seul, onde a cada ano novos empreendimentos bilionários são erguidos para servir de lar para a camada mais alta do país. No complexo de edifícios que faz às vezes de horizonte para os moradores de lá, cada apartamento é avaliado em cerca de US$ 3 milhões. Apesar da proximidade com a opulência sul-coreana em Guryong há pouco luxo.

Quase todos os barracos são desprovidos de banheiros, poucos têm um sistema de aquecimento eficaz – algo primordial em uma cidade onde a temperatura cai abaixo de zero no inverno – e há pouca urbanização. Os barracos são geminados e as vielas tão estreitas que em muitos casos duas pessoas não conseguem caminhar lado a lado. “É uma vida difícil, muita gente fica doente com facilidade no inverno, não é o que gostaríamos para nossas vidas”, diz Kim-Won Sim, uma das poucas pessoas a quem a reportagem do iG teve acesso para conversar.

Guryong é resultado direto do processo de expansão econômica da Coreia do Sul. Nos meses que antecederam a abertura dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, o governo deu início a um processo de “limpeza” estética de sua capital. A intenção era mostrar ao mundo como o país saíra da miséria de 30 anos antes para se transformar em um tigre asiático que despontava na esteira do desenvolvimento japonês. Havia também um componente político. Com a guerra fria ainda em curso, era importante fazer propaganda do sucesso da experiência capitalista, em contraste ao fechado comunismo da Coreia do Norte, apoiada pela então União Soviética. Quem era pobre e morava perto dos estádios e ginásios dos Jogos foi desalojado.



Assim, Guryong nasceu como nascem quase todas as favelas do mundo. Sem ter para onde ir, os desalojados invadiram uma área privada no que era então o cinturão verde de Seul. Estão lá há 24 anos e a maior parte dos moradores trabalha catando papelão nas ruas de Seul para abastecer uma usina de reciclagem instalada ao lado da favela. Outros atuam na construção civil e muitos fazem, simplesmente, bicos. A média salarial por família é estimada em cerca de US$ 500 por mês, muito abaixo dos US$ 2,5 mil médio de cada coreano.

Quase toda a favela de Guryong é composta de barracos precários. Foto: Yan Boecha


Quase toda a favela de Guryong é composta de barracos precários. Foto: Yan BoechatAo todo, mais de 2 mil pessoas moram na favela, que foi instalada há 24 anos em terrenos privados. Foto: Yan BoechatPublicidadeOs barracos são construídos colados uns aos outros e, do alto, parecem uma construção homogênea . Foto: Yan BoechatUm córrego onde parte do esgoto é despejado corre ao ar livre por toda a favela. Foto: Yan BoechatAs vielas são tão estreitas que em muitos pontos apenas uma pessoa pode passar. Foto: Yan BoechatIgreja. Foto: Yan BoechatA energia é compartilhada pelos moradores de Guryong de forma não exatamente organizada. Foto: Yan BoechatPraticamente todos os barracos da favela não têm banheiro e os sanitários disponíveis são compartilhados pelos moradores. Foto: Yan BoechatHá um pequeno comércio de bens e serviços em Guryong, como esse salão de beleza improvisado. Foto: Yan BoechatNão há nenhuma área de lazer na favela de Guryong e sofás velhos e cadeiras fazem o papel de varandas improvisadas. Foto: Yan BoechatAo lado da favela uma usina de reciclagem de lixo compra o que os muitos catadores de papelão que moram ali conseguem recolher nas ruas de Seul. Foto: Yan BoechatBoa parte dos moradores de Guryong é formada por pessoas idosas. Foto: Yan BoechatCachorros não muito comuns nas ruas de Seul, mas em Guryong eles caminham tranquilamente . Foto: Yan BoechatComo em qualquer favela do mundo, a improvisação floresce. Foto: Yan BoechatPraticamente todos os barracos são revestidos com cobertores de lã sintética. Foto: Yan BoechatPontes improvisadas sobre o córrego que corta a favela de Guryong. Foto: Yan Boechat

Construída sobre fortes pilares liberais, a Coreia do Sul que emergiu nas últimas décadas não lida bem com locais como Guryong. Em uma sociedade onde o sucesso profissional e financeiro tornou-se uma obsessão tão grande ao ponto de a maior parte 
dos coreanos abdicar das férias a que tem direito para produzir mais, viver em uma favela é sinônimo de fracasso absoluto.
“Isso aqui é uma vergonha para a Coreia e as pessoas que moram aqui sabem disso”, diz Lee Hyun-Moon, um oficial da polícia que controla a entrada e saída de não moradores de Guryong. É difícil encontrar alguém disposto a conversar ali. Quando surge uma câmera as pessoas escondem os rostos ou simplesmente apressam o passo para não serem retratadas. “Não é orgulho para ninguém viver aqui, é vergonhoso”, KimWon-Sim, que também trabalha no centro comunitário da favela.





Yan Boechat
Para Kim Won-Sim, é uma vergonha para um coreano ter que viver em uma favela

A pressão por ser bem sucedido nessa Coreia moderna e ocidentalizada faz do país o campeão absoluto de suicídios entre as nações desenvolvidas. Por ano, 28,4 pessoas em cada grupo de 100 mil habitantes tira a própria vida. Entre apenas os homens, esse índice sobe para impressionantes 39 suicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. Com 50 milhões de habitantes, a Coréia do Sul vê, anualmente, 14,2 mil pessoas cometerem suicídio. E esse número vem subindo ano a ano, na mesma proporção do desenvolvimento econômico do país.





De acordo com dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, o índice de suicídios na Coreia do Sul cresceu impressionantes 153% entre 1995 e 2009. Entre os 35 países analisados, só a Coreia e outras quatro nações registraram crescimento no período. No Brasil a taxa de suicídio é de 4,9 mortes por 100 mil habitantes, enquanto a taxa de homicídios está em 26 crimes por 100 mil habitantes. Na prática, é possível afirmar que, proporcionalmente, mais pessoas tiram a própria vida na Coreia do Sul do que são assassinadas no Brasil, ainda um dos países mais violentos do mundo.
Não há levantamento estatístico que mostre o número de suicídios nas favelas coreanas. Mas por conta do passado recente de abusos contra as populações mais pobres na disputa por áreas nobres, especialmente em Seul, há um permanente clima de tensão. A Coreia do Sul vem implantando um controverso programa de reurbanização nas grandes cidades que consiste, basicamente, em desalojar populações de menor renda para dar lugar a empreendimentos de alto padrão.
Recentemente, a Comissão Asiática de Direitos Humanos fez duras críticas ao governo da Coreia do Sul por conta dessa política. O caso mais célebre é conhecido como “A Tragédia de Yongsan”, quando seis pessoas que protestavam por serem desalojadas de uma espécie de cortiço na região central de Seul, em 2009, foram mortas pelas forças policiais sul coreanas.
Guryong, de certa forma, terá o mesmo destino de Yongsan – sem os casos de violência, espera-se. Os donos dos terrenos onde as duas mil pessoas vivem estão requerendo a área na Justiça. A ideia é construir um empreendimento imobiliário avaliado em US$ 1 bilhão.
A prefeitura de Seul já deixou claro que não há a menor possibilidade de os moradores continuarem ali e vem trabalhando para retirá-los. Instalou no local um posto policial para impedir novas invasões e destruir as casas que forem desocupadas. Dessa vez, garantem as autoridades, os moradores serão realocados de forma digna. Só não está claro para onde elas serão levadas dessa vez.
* O repórter viajou à Coreia do Sul a convite da empresa Hankook Pneus

Sunday, November 04, 2012

Enchentes em São Paulo


                                                                                    Foto: Valter Caldana


Entrevista com o Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie sobre enchentes em São Paulo , que sugere uma revisão geral no uso e ocupaçãodo solo .


http://jovempan.uol.com.br/videos/como-resolver-o-problema-das-enchentes-em-sp-52733,1,0

Friday, November 02, 2012

OS NOVOS PREFEITOS E AS ENCHENTES

OS NOVOS PREFEITOS E AS ENCHENTES

Qualquer intenção mais consistente em obter sucesso no enfrentamento das enchentes urbanas exigirá de nossos novos prefeitos a compreensão e adoção de três premissas básicas: sim, é possível reduzir substancialmente o impacto das enchentes nas grandes cidades brasileiras; os programas para tanto até agora elaborados e executados fracassaram fragorosamente em seus objetivos; as chuvas não são as culpadas.
Concisamente, as enchentes urbanas são explicadas pelo incrível aumento do volume de águas de chuva que aflui, em tempos sucessivamente menores, para um sistema de drenagem (córregos, rios, bueiros, galerias, canais...) progressivamente incapaz de lhe dar a devida vazão.
Esse aumento do volume de água e a redução do tempo em que chega às drenagens são promovidos essencialmente pela impermeabilização do solo urbano, pela cultura de canalização e retificação de drenagens naturais e pela tendência de crescimento por espraiamento geográfico apresentada por grande parte de nossas cidades.
Como um enorme agravante a esse quadro, considere-se ainda o fantástico grau de assoreamento dessas drenagens por sedimentos provenientes dos intensos processos erosivos que ocorrem particularmente nas faixas periféricas de expansão da cidade, e, suplementarmente, por entulho de construção civil e por lixo urbano. Esse assoreamento acaba por reduzir ainda mais a já comprometida capacidade de vazão de toda a rede drenagem, implicando em enchentes progressivamente mais frequentes e abrangentes.
Ou se ataca essa questão em suas reais causas, através de um conjunto de medidas, ditas não-estruturais, que recuperem ao máximo a capacidade das cidades em reter as águas de chuva, seja por infiltração, seja por acumulação (pequenos reservatórios domésticos e empresariais, calçadas, valetas e pátios drenantes, bosques florestados e arborização intensa, etc,), revertam a tendência ao espraiamento geográfico e combatam a erosão em sua origem, ou nunca nos livraremos do flagelo das enchentes. As bilionárias obras de alargamento e aprofundamento das calhas de nossos rios principais, medidas ditas estruturais, são necessárias, mas a realidade mostra que são insuficientes e já se aproximam de seu limite de benefícios, além do que seus efeitos ficam condicionados a um ininterrupto, dispendioso e conturbador trabalho de desassoreamento de todo o sistema de drenagem.
Uma última e providencial sugestão aos futuros prefeitos: pactuar uma indispensável divisão de responsabilidades com os governos estaduais, pela qual caberia aos municípios a concepção e implementação das medidas não-estruturais e ao estado a execução das medidas estruturais.

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)
• Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia
• Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão” e “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”

Thursday, November 01, 2012

Debate sobre a habitação no Brasil



Observatório na Rádio CBN: debate sobre a habitação no Brasil



O déficit habitacional brasileiro é estimado em cerca de 5,5 milhões de unidades, sendo em torno de 1,5 milhões nas regiões metropolitanas. Desses totais, 90% correspondem a famílias em situação de pobreza, com renda familiar na faixa de 0 a 3 salários mínimos. O desafio da questão habitacional no Brasil foi um dos temas abordados pelo professor Adauto Lúcio Cardoso em entrevista à Rádio CBN no último domingo (27/10) – segundo turno das eleições municipais. Essa participação representa mais uma ação do INCT Observatório das Metrópoles com o propósito de difundir os temas metropolitanos aos diversos setores da sociedade brasileira.
Na entrevista para o jornalista Milton Jung, da Rádio CBN, o professor Adauto Lúcio Cardoso mostrou que o déficit habitacional é apenas uma parte dos problemas na área da moradia, porque o estoque de domicílios existente apresenta graves situações de precariedade. As estimativas do IBGE para os domicílios em áreas de favelas montam a um total de 3,2 milhões. Esse fenômeno, mais do que o déficit, tem uma concentração fortíssima nas metrópoles, com as regiões do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, sozinhas, agregando cerca de 1,2 milhões de domicílios, respondendo por 37,5% do total. A Região Metropolitana de Belém, que tem a maior concentração relativa de favelas no Brasil, tem mais da metade do seu parque domiciliar (cerca de 54,4%) em situação de precariedade habitacional. E esses números ainda não levam em conta os loteamentos irregulares e clandestinos das periferias, a irregularidade fundiária, o problema do saneamento e dos transportes.
Cardoso também defendeu que o problema habitacional não se resolve apenas com o financiamento e com os subsídios, embora estes sejam elementos fundamentais. É necessário tratar adequadamente o problema do acesso à terra e do controle sobre os processos de valorização fundiária. Além do mais, a Constituição estabeleceu claramente a competência municipal, ao estabelecer o princípio da função social da propriedade e colocá-lo sob a tutela dos Municípios. O Estatuto da Cidade, promulgado em 2001, reitera e detalha os princípios constitucionais, criando instrumentos que permitem aos governos locais atuar de forma muito mais eficaz na questão habitacional. No entanto, poucas administrações têm efetivamente atuado nesse campo, o que tem se refletido no aumento desenfreado do preço da terra nas áreas metropolitanas, inviabilizando ou dificultando a provisão de unidades para as camadas de baixa renda no âmbito do programa Minha Casa Minha Vida.

Tuesday, October 23, 2012

Déficit de cidade



Nosso déficit não é de casas, é de cidade
seg, 2012-10-22 14:05 — Patricia
Raquel Rolnik defende que atualmente não há políticas para moradia, apenas políticas focadas no setor imobiliário e financeiro
22/10/2012
Pedro Carrano e Thiago Hoshino
de Curitiba (PR)





 




GCM e funcionários da Prefeitura expulsam famílias que ocupavam terreno
na Vila Prudente - Foto: Ale Vianna/Folhapress







































A questão não é apenas a falta de moradia no Brasil. Mas a falta de espaço e de uma política para o desenvolvimento urbano. Isso em meio a um quadro de financeirização da construção de imóveis nas cidades. Assim, os programas de crédito na área de moradia ganham um aspecto de política anticíclica, mas estão distantes de resolver a questão da moradia digna no Brasil. Este é o panorama montado pela relatora especial para o direito à moradia da ONU, Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista, que esteve em Curitiba, onde participou de um evento promovido pelo Ministério Público e UFPR. Visitou também duas comunidades da região metropolitana que serão afetadas pelas obras da Copa do Mundo. Entre uma atividade e outra, concedeu a entrevista abaixo ao Brasil de Fato.
Brasil de Fato – O tema das cidades foi pautado, nas eleições municipais, com a atenção que merece, na sua avaliação?
Raquel Rolnik – Os momentos eleitorais, no Brasil, infelizmente são pouco pautados e se constituem pouco como embates de projetos de cidade. Há uma dimensão político-partidária, e raramente o debate se dá em torno de projetos alternativos de cidade, no amplo espectro em que isso está acontecendo no Brasil. Por outro lado, começamos a perceber entre os cidadãos um movimento maior de interesse pela cidade, pela política urbana, fruto do próprio amadurecimento e consolidação das cidades no Brasil, mas principalmente em função do enorme mal estar nas cidades brasileiras e o seu modelo insustentável. Particularmente, o agravamento dos problemas de mobilidade. Mas a questão da discussão do modelo de cidade que queremos também começa a ser pautada a partir daí, em várias instâncias, em vários momentos. Mas ainda estamos longe de discutir projetos de cidade nos momentos eleitorais.
Parece que os projetos oscilam entre a construção de obras, ou então numa melhor gestão dos recursos, mas poucas propostas no âmbito democrático e popular.
Infelizmente, a pauta da democratização da cidade é uma pauta dos anos 1990, das gestões municipais. Ela desapareceu da agenda das gestões municipais. Ela foi muito importante durante o processo de redemocratização, e durante o processo de construção de novas coalizões com projetos de poder, mas hoje ela é absolutamente irrelevante, e, nos 5.564 municípios pode ter algum, mas no geral a gente não vê que o tema da democratização da gestão, que foi um tema importante, ainda faz parte da agenda. Nada disso. A discussão hoje primordial está centrada em cima das obras, mas que obras? E que gestão de serviços? Poderia até ser uma bela discussão sobre obras e padrão de gestão de serviços, se isso estivesse ligado a alguma proposta de planejamento da cidade, mas não é. Curioso, no processo eleitoral anunciam-se mágicas, “vou fazer um mágica”, quando a gente sabe que a questão mais séria, que nos ajuda a entender por que nossas cidades não são planejadas, está nas gestões, que têm que mostrar serviço em quatro anos, para serem reeleitas, mas nenhum projeto de reestruturação da mobilidade se impõe em quatro anos. As mudanças que têm que acontecer na realidade brasileira são mudanças estruturais, em quinze a vinte anos, como em qualquer país do mundo. Mas os gestores têm que encontrar o que dá para inaugurar, porque se não der para inaugurar, como vai mostrar o que se fez?
Quais os outros entraves desse processo?
Sobre a cidade em si existem níveis de gestão diferentes: várias agências da União, governo do estado e município, e nós não construímos no Brasil ainda a área de Desenvolvimento Urbano, ao contrário da área da Saúde, que passou por uma reforma do Estado e uma estruturação do Estado. A gente pode criticar que está bom ou ruim, mas temos um Sistema de Saúde, no qual você tem mais claramente hierarquizado quais são as competências dos entes, você tem um processo de controle social, você tem a universalização do acesso à saúde como meta, então você tem um piso per capita, você tem um sistema estruturado. Na área do desenvolvimento urbano, nós não temos um sistema estruturado, nós temos competências concorrentes. Isso é uma coisa não equacionada, sobre qual é a competência de cada ente, quais são os mecanismos de cooperação entre os entes, não tem nenhum sistema estruturado em cima da universalidade do acesso à cidade como padrão.











A arquiteta e urbanista Raquel Rolnik - Foto: UN
Então, embora não estejam na agenda, medidas como a reforma urbana, ações previstas no Estatuto da Cidade, ainda são urgentes?
Sim, mas a questão é que o Estatuto das Cidades enuncia princípios e diretrizes importantes, mas na prática nós não fizemos uma reforma do Estado na área do desenvolvimento urbano, que permita inclusive que os entes executem esses princípios e diretrizes do Estatuto. Essa é uma dimensão mais institucional, e a outra é mais política. A economia política das cidades ainda é conduzida pelos setores que têm na cidade o seu negócio. São interesses econômicos mais ligados ao setor imobiliário e ao setor das empreiteiras de obras públicas, concessionárias de serviço público. Isso aí manda nas cidades, nas câmaras municipais, e portanto nós não conseguimos romper essa lógica da hegemonia desse setor nas cidades. Houve uma tentativa de enfrentamento disso inclusive que passa pela democratização da gestão. Quem são os interlocutores? São esses elementos presentes na coalização dominante, então acho que nós temos um desafio enorme para aplicar a reforma urbana no Brasil. Ela foi anunciada e não foi implementada. Estamos falando de terra, numa cultura patrimonialista, então é muito difícil romper a hegemonia patrimonialista na gestão das cidades.
O quadro de despejos na Espanha e EUA é um cenário que podemos ver também na realidade brasileira a médio prazo?
É muito difícil avaliar. Eu acabei de ler um estudo do Ipea, que discute se o que estamos vivendo hoje é ou não uma bolha imobiliária. As condições em que está acontecendo todo esse processo de explosão de preços no mercado, esse boom da indústria da construção civil, evidentemente catapultado pela existência de crédito, pela existência de subsídio, pelo Minha Casa Minha Vida, e pela própria dinâmica do interesse econômico, pela mudança do padrão e do perfil das empresas construtoras e incorporadoras no Brasil, que abriram seu capital em bolsa, completamente diferentes como setor, um setor muito financeirizado, esse processo é muito diferente do que está acontecendo na Espanha e que aconteceu nos EUA. Dito isso, por outro lado se por alguma razão o processo de crescimento econômico for interrompido e começarmos a viver algum tipo de crise com aumento do desemprego, e diminuição radical da renda, evidentemente as famílias endividadas vão ter dificuldade para pagar, mas a pergunta é que não parece no horizonte que o Brasil vai viver uma crise econômica. É engraçado que no IPEA há um estudo que provava que era uma bolha, e na mesma semana saiu o boletim oficial do Ipea provando que não era uma bolha. O mais evidente é que não vamos resolver o problema da habitação no Brasil, principalmente para os mais pobres, através dos programas de crédito, em nenhum lugar se conseguiu isso, e não é no Brasil que se vai conseguir também.
A classe trabalhadora no Brasil teve acesso a maiores rendimentos, mas na questão da moradia há uma pendência muito grande.
Acho que não são irrelevantes os aumentos de renda e de poder de consumo que os mais pobres tiveram no Brasil, tudo isso é absolutamente claro, o problema é que nosso déficit não é de casas, é de cidade, de urbanidade, e isso o Minha Casa Minha Vida não resolve, tanto é que ele está claramente estrangulado pela inexistência de áreas urbanizadas adequadas. Então o Minha Casa Minha Vida, é um programa de dinamização econômica e geração de empregos, não é uma política habitacional, não é algo que avalia as necessidades habitacionais e a partir dali desenha uma política, ele tem outra finalidade. E moradia não é que nem geladeira, que se arruma dinheiro e leva para casa. O que pode estar aparecendo, e eu verifiquei isso numa região de Curitiba, é que nós vamos produzir a partir desse programa áreas inteiras de “não cidade”, com população de baixa renda, guetos de ‘não cidade’, com todas as consequências que isso pode ter.
Como vê essa questão em Curitiba, considerada capital “modelo” de urbanismo?
Para a cidade e para as pessoas, no caso do Tatuquara (periferia-extrema de Curitiba, usada para programas de moradia como o MCMV) é uma coisa que hoje nos mapas da Cohab eu olhei aquilo e eu lembrei imediatamente do que foi produzido por um programa semelhante durante vinte anos no Chile e produziu na Zona Sul do Chile um imenso território que hoje é uma fonte de problemas sociais e urbanísticos, e acho que é isso que vai acontecer. Eu tenho mais medo disso do que da bolha, das famílias ficarem endividadas, tenho mais medo do produto cidade que vai ser isso, um produto desqualificado com efeitos muito ruins sobre a vida das famílias, um monte de depósito de gente, e não produção de cidades, acho que isso é mais preocupante do que o perigo da bolha.
O caso do Tatuquara é sintomático da política de Curitiba em relação ao urbanismo?
Infelizmente, neste caso isso não é um modelo de Curitiba, é um modelo do Brasil. Em toda a grande cidade há um ou dois ‘Tatuquaras’, esse é um modelo predominante. Curitiba não muda nada e não inova nada em relação a este modelo. Na minha opinião, Curitiba tem uma capacidade local de planejamento e gestão superior a das outras cidades brasileiras, mas, assim como elas, não rompeu com um modelo de exclusão territorial. E essa é uma questão política e não técnica. E há cidades que não têm nenhum mapa cartográfico, quer dizer, o problema é de natureza política. E outra: acho que tem uma questão local, mas eu acho que há uma federativa que não está resolvida – o que temos na área de desenvolvimento urbano? Um banco que financia casa e projetos de transporte e de saneamento. A política urbana é muito mais que isso, o banco devia ser um dos instrumentos de uma política e não “a” política, financiamento tem que ser instrumento da política e não “a” política, isso também é uma financeirização da produção das cidades e que não é exclusiva do Brasil.
Em relação ao PAC, quais são os impactos do programa nas populações?
Eu posso falar um pouco do PAC urbano, PAC das mobilidades e favelas. É interessante haver recurso para fazer urbanização integral de favela e para projetos de mobilidade. Mas, posto isso, de novo o nosso drama é a relação desse projeto e o planejamento geral da cidade. O que é um pouco triste é ver que o PAC, assim como ‘Minha Casa Minha Vida’ veio depois do ciclo de elaboração dos planos diretores participativos das cidades, e no entanto, não tem nenhum tipo de diálogo com ele. E a gente vê muita coisa, o PAC da Copa no Rio de Janeiro é uma abertura de uma frente de expansão imobiliária, na Zona Sul, concentrando valores onde já têm, então é questionável e poderia servir para implementar projetos mais debatidos e pactuados de cidade.